Professora do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação da COPPE/UFRJ desde 1993, Cláudia Werner é especialista em Engenharia de Software, Orientação a Objetos e Reutilização de Software. Já formou 5 doutores e cerca de 30 mestres na área. Nessa entrevista exclusiva para a DA Insight, ela indica alguns cuidados na hora de implantar um programa de reuso e as estratégias para obter sucesso nessa iniciativa.
DA Insight: Como as empresas vêm tratando a reutilização de software? E as universidades?
Cláudia Werner: Essa opção ainda é tratada de forma muito tímida e diferenciada nas empresas. Na maior parte das vezes, a reutilização é feita de forma oportunista, adotando-se técnicas ad-hoc, e não de forma sistemática e pré-planejada. Porém, o impacto na produtividade e qualidade é limitado quando não se estabelece uma estratégia para a reutilização de software. Da mesma forma, são poucas as grades curriculares que incluem esse tema como uma disciplina específica dentre os tópicos oferecidos na área de Engenharia de Software. Isso é muito raro no nível de graduação.
DA Insight: Qual a relação entre Arquitetura Orientada a Serviços (SOA) e a reutilização de software?
Cláudia Werner: A Arquitetura Orientada a Serviços pode ser vista como uma das técnicas para se realizar a reutilização de software, assim como o Desenvolvimento Baseado em Componentes ou as Linhas de Produto de Software.
DA Insight: Quais os fatores críticos que podem impactar positiva ou negativamente na adoção do reuso?
Cláudia Werner: É importante ganhar e manter um comprometimento da gerência em todos os níveis hierárquicos e garantir a continuidade de recursos financeiros para promover o programa de reutilização na empresa. Somente com uma visão da reutilização como investimento, onde se planta hoje para colher o resultado no futuro, é que as chances de sucesso aumentam.
DA Insight: Qual o impacto com a inclusão de requisitos relacionados a reuso no processo de avaliação do
MPS.BR (Certificação de Melhoria de Processos do Software Brasileiro), que é baseado no CMMI (Capability Maturity Model Integration)?
Cláudia Werner: Uma das medidas de amadurecimento de uma técnica é justamente o reconhecimento da necessidade de ser garantir a sua execução. A introdução dos processos de reutilização no MPS.BR permitirá que as empresas discutam e planejem as melhores formas de se implementar a reutilização de software, buscando um aumento gradativo dos níveis de sistematização de suas práticas atuais.
DA Insight: Como as questões gerenciais e de processo influenciam no sucesso dos programas de reuso?
Cláudia Werner: Elas são fundamentais para o sucesso na adoção de uma estratégia de reutilização de software. Todos os relatos de empresas que investiram nessa opção mostram a importância de focar nos aspectos não tecnológicos da reutilização de software, que envolvem questões relacionadas aos recursos humanos e financeiros, treinamento e aspectos legais, dentre outros. O foco em questões puramente tecnológicas tende a esconder as principais barreiras na hora de introduzir uma nova tecnologia em uma empresa, que é muito mais um problema de mudança cultural. Também é necessária uma adaptação dos processos utilizados dentro da empresa para incorporar aspectos específicos de incentivo à reutilização de software.
DA Insight: Existem estimativas sobre o aumento da reutilização de softwares no Brasil e exterior?
Cláudia Werner: Infelizmente, os números se resumem aos relatos de experiência específicos de algumas empresas no exterior, retratando situações muito singulares de difícil generalização. Nesse sentido, precisamos trabalhar para que medidas comecem a ser coletadas, para que no futuro possamos compará-las e verificar os possíveis ganhos em produtividade e qualidade em função do incentivo ao reuso de ativos digitais.
DA Insight: Qual o papel das universidades na formação de profissionais especializados em SOA e reuso?
Cláudia Werner: As universidades têm papel fundamental na formação de pessoas quanto aos conceitos, princípios e técnicas para a adoção de qualquer tecnologia relacionada à reutilização de software. Mas é claro que as empresas também têm uma missão a cumprir nessa formação, incentivando seus funcionários. Eles devem ser continuamente treinados para lidar com as diferentes tecnologias de desenvolvimento, seja através de cursos de curta duração ou de longa duração.
DA Insight: E como a universidade pode contribuir na geração de produtos para a indústria de tecnologia?
Cláudia Werner: A maior vocação das universidades, principalmente aquelas engajadas no desenvolvimento de pesquisa, está na sua capacidade de inovar e criar protótipos que no futuro poderão ser utilizados como base para a criação de produtos para a indústria. Não vejo na universidade o local ideal para se desenvolver produtos de mercado, na medida em que não há mão-de-obra suficiente para isso. Além disso, poderíamos estar desvirtuando seu principal objetivo de educação e desenvolvimento tecnológico. O importante é a aproximação desses dois mundos, indústria e academia, no sentido de cada um poder contribuir com aquilo que faz melhor. O incentivo do governo aos projetos que integrem universidades e empresas é um dos caminhos mais promissores para se iniciar esse processo de criação de novos produtos.